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UNIVERSIDADE  FEDERAL  DO  MARANHÃO
DEPARTAMENTO  DE  FILOSOFIA

Noção de Causalidade em Hume 

Maria do Amparo Lago e Cruz
Profª Assistente do Dep. de Filosofia da UFMA  

 

1. INTRODUÇÃO

 David Hume (1711 – 1776), foi o último dos três grandes empiristas britânicos, precedido por John Locke e George Berkeley. As teses enunciadas por Locke e desenvolvidas por Berkeley são, na obra de Hume, levadas às suas conclusões lógicas, pelo que lhe coube a denominação, pelos empiristas modernos, de precursor de sua filosofia. Não que estes subscrevam todas as afirmações humeanas ou compartilhem inteiramente da forma como o aludido pensador expôs suas teorias e análises, mas pelo fato de Ter sido ele o único filósofo que, até os fins do século XVIII, adotou uma postura empirista rigorosa e tentou apresentar de modo consistente a sua filosofia.

A obra mais famosa de Hume é "Investigação Acerca do Entendimento Humano". Nela, Hume defendia a eficácia do método experimental, através do qual poderíamos desenvolver uma ciência do homem, ciência essa que incluiria, como temas, a natureza de nossas idéias e suas origens, a natureza de nosso processo de raciocínio, bem como a Ética, Estética e a Política, entre outras matérias.

O procedimento metodológico utilizado por Hume – a indução – teve sua origem nas críticas à transmissão de conhecimentos tanto da filosofia moral da Antigüidade que, segundo ele, era "inteiramente hipotética e dependia mais da invenção do que da experiência". . . Tendo em vista este aspecto hipotético inerente ao conhecimento moral e físico do passado, Hume atribuiu-se como tarefa principal a de descobrir um método que fosse considerado o "único fundamento sólido da ciência do homem", tendo como característica básica "repousar na experiência e na observação"1.

Na verdade, Hume estava visualizando a possibilidade de transferir o método experimental utilizado por Newton ou, quem sabe, até com mais rigor do que este, para a área da ciência humana.

A primeira etapa do método experimental – a análise – consiste em fazer experimentos e observações e em tirar conclusões gerais através da indução. Newton admite que as inferências obtidas por esse processo de modo algum comportam dúvidas, pois as hipóteses se acham excluídas de sua filosofia experimental.

A etapa seguinte, a síntese, consiste em assumir que as causas descobertas e estabelecidas como princípios, esclarecem os fenômenos que lhes dizem respeito e comprovam os supostos princípios. Entretanto, com prudência, acrescenta que estes princípios gerais não comportam quaisquer "qualidades ocultas ou mecânicas", de vez que estas nada explicam e devem, por essa razão, ser eliminadas da filosofia experimental.

Hume, seguindo fiel o caminho percorrido por Newton, assume atitude semelhante à deste na primeira etapa do seu método, e assevera que "promete tirar conclusões unicamente quando autorizado pela experiência", pois ele considera com "desdém as hipóteses"2.

No tocante à segunda etapa do método experimental, Hume a incorpora em seu plano e afirma que o principal objetivo da razão humana consiste certamente em "restringir os múltiplos efeitos particulares a um pequeno número de causas gerais, mediante raciocínios baseados na analogia, na experiência e na observação".

Parece-nos, portanto, que Hume se convenceu de que a "ciência do homem" poderia também ser reduzida a pequeno número de princípios básicos (Axiomas). Disto resulta sua significativa contribuição à filosofia, da qual desejamos enfocar apenas um aspecto: ter situado no núcleo de sua descoberta a explicitação do princípio de causa e efeito.

Questinando-se sobre a origem da idéia de causalidade, Hume recusa-se a explicá-la pelo raciocínio "a priori". "De causas que parecem semelhantes esperamos efeitos semelhantes. É este o resultado de todas as nossas conclusões experimentais. Ora, parece evidente que se esta conclusão fosse reproduzida pela razão, ela seria tão perfeita não só para uma longa série de experimentos"3. Por outro lado, argumenta Hume que sendo a causa e o efeito duas coisas distintas, nada nos autoriza a postular a sua identidade ou a sua necessária ligação.

O recurso à experiência preconizado por Hume seria, portanto, segundo ele, a solução mais satisfatória para justificar a controvertida questão da causalidade.

No momento, este tema se constitui objeto da nossa investigação, cuja finalidade é evidenciarmos o modo como Hume o coloca em sua obra principal, ou, mais precisamente, fazermos uma exposição do tratamento por ele dispensado ao mencionado assunto.

Neste contexto, procuraremos, através das páginas deste estudo, salientar a contribuição de Hume no campo da Teoria do Conhecimento, no que respeita à questão da causalidade. Obviamente que não tencionamos nele expor, de forma sistemática e completa, toda a filosofia do autor relativa ao assunto, ou seja, não nos aventuramos a pretender dizer a última palavra. O motivo da nossa escolha pelo filósofo em apreço, prende-se ao fato de entendermos Ter sido ele o que, com mais profundidade e erudição, examinou o tema que ora colocamos em evidência.

Se Hume consegue responder satisfatoriamente à questão primordialmente visada, ou não, se sua descrição do princípio de causa e efeito como produto da experiência convence ou não, se seu objetivo de instaurar um método para servir de base à ciência é atingido ou não, isto não discutimos aqui. Agora, sua proficiência, a nosso ver, não pode ser contestada e seus esforços permanecem dignos de estudo.

Inicialmente, fazemos uma abordagem retrospectiva ao modo como alguns pensadores conceberam a causalidade para, a partir dessa visão panorâmica, levarmos a efeito nosso objetivo. Nestas considerações gerais, convém justificar o critério de escolha para a seleção dos respectivos pensadores. Foi nosso propósito enfocar a diversidade de opiniões que diretamente dizem respeito à matéria. Para tanto, foram consultados textos originais – livros ou opúsculos, e, embora tenhamos usado edições em língua inglesa e espanhola, demos preferência à utilização de traduções publicadas em língua portuguesa.

2. CAUSALIDADE

Segundo Abbagnano, no seu Dicionário de Filosofia, o termo causalidade, em sentido mais geral, é a conexão entre duas coisas, em virtude da qual a segunda é univocamente previsível a partir da primeira4.

A elaboração do conceito de causalidade processou-se ao longo de três períodos bastante familiares ao contexto filosófico e o científico. Tais períodos não são excludentes entre si, nem se delimitam claramente, antes se interpenetram. O primeiro, sustenta-se grandemente nas noções de "poder mágico" e de "destino". Em ambas as noções revela-se o sentido antropomórfico de que o conceito de causalidade achou-se impregnado. Em nenhuma das noções, entretanto, encontram-se presentes as características que posteriormente irão definir o princípio de causalidade tais como universalidade, seqüência initerrupta de eventos e identidade entre a causa e o seu efeito, não faltando, porém, as idéias de sucessão temporal e de necessidade.

No período filosófico, são os atomistas quem emprestam relevante contribuição, com especial destaque a Demócrioto. São eles os primeiros a conceber, de modo bastante claro, a idéia de relação causal. Todavia, é com Aristóteles que o princípio estendeu-se de forma substancial, a ponto de vincular-se à totalidade do seu sistema: na Lógica, a noção de termo médio recobre à de causa; na Psicologia, a relação de meio e fim; na Metafísica, os conceitos de ato e potência implicam os de causa e efeito. Por outro lado, embora antes abordadas por Platão*, é com ele que se sistematizam e se formalizam as idéias sobre a noção de causa, com a explicitação de seus vários matizes ou espécies. Desse modo, surgem claramente definidas as noções de causa formal, material, eficiente e final.

O período científico, que obviamente coincide com a modernidade, apresenta-se como aquele onde a investigação sobre o conteúdo e os fundamentos do conceito de causalidade adquire maiores proporções, em virtude da controvérsia que o assunto gerou nos meios científicos e filosófico.

Na tentativa de explicitar o significado da noção de causalidade, podem-se distinguir, nesse período, duas perspectivas opostas: a dos empiristas e a dos racionalistas. Na versão empirista, embora valorizando sobremaneira o conhecimento sensível, sugere-se a identificação entre causalidade e sucessão temporal. Nesse âmbito, inclui-se Hobbes que, "tendo sido influenciado pela mecânica de Glileu, desenvolveu uma visão mecanicista do mundo, segundo a qual a única coisa que existe são corpos em movimento"6. Em conseqüência disso, ele exclui do conceito de poder produtivo quanto a de relação necessária, porquanto, a seu ver, não se podem justificar em termos de dados percentuais. Para os racionalistas, entretanto, observa-se, acentuadamente, em Descartes, Spinosa e Leibniz, que ambas as noções são fundamentais.

Paradoxalmente, em Galileu percebe-se a existência dos dois elementos – sucessão temporal e conexão necessária – como termos definitórios da causalidade, na sua obra sobre as revoluções dos corpos celestes, onde sobressai os fundamen5os de uma física matemática, utilizando como método a combinação da indução experimental como o cálculo dedutivo. Ele admite que a única causa ciente seja a condição necessária e suficiente par o aparecimento de algo; aquilo que leve ao efeito, e que, sendo suprimido, obste ao surgimento do mesmo.

Outra contribuição de relevo, que se insere na história das idéias, no sentido de delimitar o conceito de causalidade, deve-se a Malebranche, o qual, partindo de Descartes, evolui numa direção que se definirá como empirista e que se identificará com a que foi adotada por Newton. A sua particularidade consiste na substituição do conceito de relação causal pela idéia de lei geral. Malebranche afasta a possibilidade de que seres ou fatores imperfeitos e finitos possam produzir ou ser causa de alguma coisa. "Tudo se explica com a relação intrínseca entre tais fatores ou seres e Deus. Portanto, Só Deus, mediante ações ordenadas e submetidas a um sistema de leis, é a causa única"7.

Na mesma direção seguem Laplace e Lavoisier, físico e químico, respectivamente. Porém, as razões que os impelem a tanto, não comportam uma análise neste trabalho. Em ambos, ocorre a substituição da noção de causalidade pelos conceitos de lei e função matemática. Tal substituição parece ter-se tornado imperativa, com o predomínio das chamadas leis estruturais que, na realidade, não se fundamentam em termos causais (causa e feito), mas em outros pressupostos.

Claude Barnard e Comte rejeitaram categoricamente o conceito de causalidade, sob alegação de que o mesmo tem uma significação metafísica e não científica. Os mesmos ainda alimentam a idéia de causalidade, vinculada às de poder produtivo e de conexão necessária.

Mas é a Hume que se deve a mais profunda análise do conceito de causalidade, cuja significação deveria ser preservada por ser fundamental às operações de previsão, sem as quais não se poderia falar de conhecimento científico. Entretanto, sendo sua opinião a de que a previsibilidade não se legitimaria em dados perceptuais, restava-lhe, pois, admitir a sucessão temporal entre eventos, alimentada pelo hábito que adquirimos de esperar que um entre estes eventos possa fazer surgir um outro como conseqüência.

3. NOÇÃO DE CAUSALIDADE EM HUME

Como Locke e Berkeley, Hume envidou esforços no sentido de buscar soluções às questões que, sobremaneira, haviam fustigado àqueles, quais sejam: a natureza dos elementos básicos que são o alicerce de todo o conhecimento humano, e a natureza da mente cognoscível que possui tal conhecimento. Não foi outro o interesse original de Hume, e é por isso que todas as suas obras, principalmente as de caráter epistemológico, acham-se alicerçadas em suas conclusões fundamentais sobre as origens, a extensão e os limites da compreensão humana.

Tal como os demais empiristas, Hume faz derivar todos os conteúdos mentais da experiência. Entretanto, utiliza uma terminologia bastante diversa. * * Emprega o termo "percepções" em sentido genérico, para designar os conteúdos da mente. Estas englobam tanto os dados imediatos da experiência (por ele chamados "impressões") quanto as imagens ou cópias dessas impressões, presentes em nosso pensamento e na razão (as quais ele domina de "idéias"). A princípio, Hume estabelece uma regra segundo a qual "idéias" e "impressões" aparecem sempre em relação de correspondência, visto que "cada idéia se assemelha às impressões das quais é cópia"8.

Hume distingue impressões de idéias em termos de intensidade em primeiro lugar. "A diferença consiste nos graus de força e vivacidade, com que incidem em nossa mente ou consciência. Podemos, pois, chamar ‘impressões’ aquelas percepções que penetram com maior força ou violência; sob essa denominação incluo todas as nossas sensações, paixões e emoções. ‘Pelo termo ‘idéias’ entendo as imagens das mesmas que são percepções menos fortes e menos vivas as quais surgem em nossa consciência quando refletimos sobre qualquer das sensações acima mencionadas"9. A seguir, distingue-se pelo critério da prioridade temporal; as impressões ocorrem sempre antes das idéias, o que implica, entre outras coisas, não termos idéias simples que não tenham sido precedidas, em sua origem, por uma impressão simples.

Como vimos na regra acima, a cada idéia corresponde uma impressão e vice-versa, e, assim, estabelece-se a relação de semelhança. Mas em que medida podemos dizer com rigor que a cada idéia corresponde uma impressão? A que impressão corresponde a idéia, por exemplo, de cão honesto, vez que podemos conceber a honestidade unida à figura de um cão?

Diante desta dificuldade, Hume vê-se compelido a rever sua regra geral, e, para responder à questão, evoca a distinção já aditada por Locke e Berkeley entre idéias simples e idéias complexas, e diz: "toda idéia simples tem uma impressão simples que se lhe assemelha e vice-versa. Ao passo que as idéias complexas não precisam assemelhar-se a impressão complexas . . ., isto é, podemos formar imagens em nossa mente que não possuam um ser correspondente no mundo real, tal como ocorre no exemplo acima. Neste caso, uma idéia complexa não corresponde a uma impressão complexa, mas essa idéia complexa compões-se de idéias simples que são as cópias de uma sensação ou percepção anterior. Para provar isto, Hume salienta a existência . . . do poder criador do espírito com capacidade de combinar, transpor, aumentar ou diminuir os materiais que nos foram fornecidos pelos sentidos e pela experência"10.

Ainda seguido a direção apontada por seus predecessores, Hume julga necessário multiplicar as fontes de conhecimento, afim de explicar sua variedade e o seu alcance. Ao invés de amarrar-se com rigor à regra segundo a qual as idéias derivam das impressões correspondentes, menciona uma exceção à mesma, embora admitindo, evidentemente, que as impressões precedem às idéias. Considera perfeitamente possível que "as idéias simples não derivam sempre e em todos os casos das correspondentes impressões"11, posto que são numerosos os casos em que se torna evidente a possibilidade de formarmos idéias de idéias, ou seja, de raciocinarmos e falamos sobre idéias que, por sua vez, são idéias de impressões. Assim procedendo, estamos constituindo idéias secundárias e não cópias de impressões. Assim procedendo, estamos constituindo idéias secundárias e não cópias de impressões. Desse modo, Hume classifica as idéias em primárias (idéias prévias) e secundárias (derivadas de idéias prévias).

Em continuidade ao estudo da origem das idéias Hume divide as impressões em impressões de sensação e impressões de reflexão. As primeiras – diz ele – "surgem na alma originalmente, a partir de causas desconhecidas", 12 isto é, elas simplesmente nos são dadas (no sentido kantiano de reconhecer o dado em sensação), quer dizer, nós simplesmente nos achamos tendo sensações e impressões delas, enquanto que as impressões de sensação. Imagina-se a ocorrência de uma impressão qualquer que, depois de cessar, é lembrada. O que permanece na mente após ter cessada a impressão é, claramente, a idéia daquela impressão que, por sua vez, pode produzir novas impressões – as chamadas impressões de reflexão. Estas podem novamente ser copiadas pela memória e imaginação e transformarem-se em idéias.

Esta análise da relação entre impressões e idéias, efetuada por Hume, pode parecer, à primeira vista, uma tese de valor puramente acadêmico e de pouca importância para no nosso estudo. Todavia, é de suma validade para a descrição da causalidade levada a cabo pelo filósofo.

No Tratado da Natureza Humana, ao expor a teoria das relações, Hume distingue dois possível sentidos da palavra relação. No primeiro, o termo pode ser usado para designar a ou as qualidades pelas quais duas idéias se associam na imaginação, de modo que uma introduz naturalmente a outra. Estas qualidades são: semelhança, contigüidade e relação causal. As mesmas são designadas por Hume relações naturais. São naturais, no sentido de que as idéias caracterizam-se entre si por uma força natural de associação, assim que uma tende, naturalmente, ou pela força do hábito, a lembrar a outra. No segundo sentido, há o que Hume chama de relações filosóficas, onde podemos comparar voluntariamente quaisquer objetos sempre que para isso haja alguma qualidade similar entre eles. Em tal comparação, a mente não se acha impelida por uma força natural de associação, mas o faz simplesmente porque opta por esse processo. As relações deste grupo são em número de sete: "semelhança, identidade, relações de tempo e espaço, proporção quantitativa ou número, graus de qualidade, oposição e causação"13.

Vemos, de imediato, que semelhança e causalidade ocorrem nos dois grupos de relações; e, por ser a contigüidade uma relação de tempo e espaço, tem lugar tanto entre as relações naturais quanto entre as relações naturais devem servir de base para as filosóficas. Por exemplo, não se podem comparar dois objetos sem que haja certa semelhança entre eles. Portanto, a semelhança é uma relação sem a qual não pode haver nenhuma relação filosófica. Por outro lado, algumas relações filosóficas reduzem-se a naturais, tal como acontece com a causação no sentido filosófico, que pode reduzir-se a relações espácio-temporais do tipo das de contigüidade, sucessão temporal e conjunção constante ou co-presença.

Na primeira parte da Investigação, Hume assegura que "todos os objetos da razão ou investigação humanas dividem-se naturalmente em duas classes, a saber: relações de idéias e relações de fato. À primeira pertencem as ciências da geometria, da álgebra e da aritmética e, em resumo, toda afirmação que é intuitivamente ou demonstrativamente certa"14. "Os outros objetivos do conhecimento são fatos e estes não são averiguados do mesmo modo, nem nossa evidência de sua veracidade, por maior que seja, é de natureza igual à precedente"15.

Hume assevera que "todos os raciocínios que se referem aos fatos parecem fundar-se na relação de causa e efeito. Só mediante esta relação ultrapassamos os dados de nossa memória e de nossos sentidos"16. Ou, para sermos mais claros, nas matemáticas procedemos por demonstração, e nas ciências empíricas, por inferência causal.

A fim de investigar o caráter da influência causal e os seus fundamentos, Hume começa seu exame perguntando-se de que impressões deriva a idéia de causa. Como vimos anteriormente, todas as idéias derivam-se de impressões (direta ou indiretamente). Mas nenhum objeto jamais revela, pelas qualidades que aparecem aos sentidos, tanto as causas que os produziram como os efeitos que surgirão dele; nem pode a nossa razão, sem o auxílio da experiência, jamais tirar uma inferência acerca da existência real de um fato. "Portanto, a idéia de causação deve derivar-se não de propriedades dos objetos, mas de relações que existem entre eles. Assim, o problema que se coloca é o de examinarmos as relações que constatarmos nos objetos, a fim de descobrirmos quais dentre elas são a fonte de nossa idéia de relação causal"17.

A primeira relação que Hume menciona é a de contigüidade. "Verifico em primeiro lugar que os objetos que os objetos que consideramos causas e efeitos são contíguo". Não quer isto dizer, a fortiori, que tais objetos sejam sempre imediatamente contíguos, já que é possível haver uma cada dia de causas entre o objeto "A" que chamamos causa, e o "Z", que chamamos efeito. porém, "A" e "B serão contíguos assim como "B" e "C", e assim sucessivamente, até o fim da cadeia, mesmo "A" e "Z" não sendo de modo imediato. Além disso, para compreendermos Hume é essencial entendermos que não se trata de uma contigüidade espacial, pois o autor não olvidou da existência de objetos que não ocupam um lugar determinado, sendo inclusive absolutamente incompatível com ele e que, apesar disso, se encontram dentro das relações causais.

A segunda relação julgada importante por Hume para explicar o fenômeno da causação é a prioridade temporal, porquanto ele não concebia a existência de instâncias da relação causal, onde a causa não fosse temporalmente anterior ao efeito, o que facilmente se pode comprovar pela experiência. Por conseguinte, não haveria circunstância em que o efeito pudesse ser concomitante à sua causa, e, havendo essa ocasião, não se trataria, então de uma verdadeira causa ou causa própria.

É evidente que tais descobertas a que chegou Hume não resultaram convincentes, e isto ele mesmo deixou bem claro ao enunciar: "Se este argumento é satisfatório, bem. Se não, rogo ao leitor que me permita a mesma liberdade empregada no caso anterior, de supor que assim é". . .18 É falso, por conseguinte, afirmar que Hume sobressaia a importância de contigüidade e da prioridade temporal como elementos essenciais da relação causal. É verdade, porém, que decide considerá-las como se assim o fossem. Temos, pois, que a contigüidade e a sucessão temporal não nos proporcionam uma explicação completa da causação, já que um objeto pode ser contíguo e anterior temporalmente a outro sem, no entanto, ser considerado causa deste. Quer dizer, pode ser necessário que um objeto, para ser causa de outro, ocorra antes deste e dele seja vizinho, mas isto, por si só, não é suficiente para admitirmos uma relação de causa e efeito entre ambos. Em decorrência disso, temos que levar em consideração uma conexão necessária, pois é fato que, por presumirmos verdadeira a máxima "nada vem do nada", temos a sensação da necessidade nas relações causais.

Todavia, a esse respeito Hume coloca a questão que pode ser formulada nos seguintes termos: de onde procede que nos representemos os fenômenos como ligados por relações necessárias? Que significa essa necessidade? Para ele, a idéia de uma conexão necessária não é algo que se perceba diretamente ou se conclua discursivamente; ela não se legitima a priori nem a posteriori; nem pela intuição nem pela demonstração. Se o princípio segundo o qual tudo o que existe deve ter uma causa não é nem intuitivamente certo nem demonstrável, então nossa crença nele deve surgir da experiência e da observação. Sendo somente "pela experiência que inferimos a existência de um objeto a partir de outro"19, "em vão pretenderíamos predizer qualquer acontecimento individual, ou inferir alguma causa ou efeito, sem o auxílio da observação e da experiência"20. Estas, com a repetição de certos acontecimentos similares, isto é, com as uniformidades que revelam, fazem nascer o hábito de crer que tais conformidades se verificarão também no futuro e tornam, portanto, possível a previsão sobre a qual se funda a vida cotidiana. Mas essa previsão, segundo Hume, não se justifica por nada. Mesmo depois que se fez a experiência, a conexão entre causa e efeito permanece arbitrária (já que causa e efeito expressam dois acontecimentos distintos), de modo que continua arbitrária a previsão fundada naquela conexão, não nos parecendo absolutamente necessária. Em outras palavras, a conclusão a que Hume chaga é que a relação causal é injustificável e que a crença que nela depositamos pode explicar-se só pelo instinto, isto é, pela necessidade de viver que a exige. Essa análise de Hume propôs o problema da causalidade na forma que este ainda mantém na filosofia contemporânea. O critério por ele utilizado para demonstrar a insuficiência da teoria clássica é o da previsibilidade. A relação causal deve tornar previsível o efeito; mas nenhuma dedução a priori pode tornar previsível um efeito qualquer; sendo a dedução, por isso, incapaz de fundamentar a relação causal. A repetição empiricamente observável de uma conexão entre dois eventos é, então, o único fundamento para afirmar uma relação de causa e efeito e o modo em que ela torna possível tal asserção é o problema que hoje serve de base a todas as noções de causalidade, tais como condicionamento, indução, previsibilidade e assim por diante.

4. CONCLUSÃO

Evidenciamos, ao longo deste estudo, que, a respeito da relação causal, por se tratar de uma relação entre fatos, o autor em destaque diz não ser necessariamente verdadeira. Pois, apesar de a experiência nos mostrar que a um certo fato ou acontecimento sucede regularmente outro fato determinado, e que ao primeiro chamamos causa e ao segundo, efeito. a mesma experiência não nos pode mostrar que há necessidade nesta conexão, haja vista que não temos, no caso, uma conexão do tipo das que figuram entre as relações de idéias (relations of ideas), como as conexões lógicas e matemáticas, onde os objetos relacionados não são fatos, mas relações. Daí dizer que as proposições que versam sobre fatos serem contigentes, isto é, não há nenhuma necessidade de que os fatos sejam tais como o são, nem nenhuma necessidade de que se relacionem tal como de faro se relacionam. Ao passo que as proposições sobre relações são necessárias, ou seja, sua verdade é de tal modo que afirmar o contrário constitui uma contradição.** Em outras palavras, o efeito não está contido necessariamente na causa, como afirmam os racionalistas. As conexões causais são inferências prováveis, fundadas na associação de idéias, tal como tem ocorrido no passado m o que nos permite predizer o futuro. Inferimos que a chama é efeito do fogo porque associamos, por semelhança, a impressão da chama com idéias de chamas, numa experiência anterior, que tivemos, e, dando prosseguimento, relacionamo-la, por conseguinte, com a idéia de fogo. Desse modo, a conexão causal é uma inferência calcada na repetição que por, sua vez, provoca o hábito, e deste deriva-se a crença (belief), de que o futuro se assemelhe ao passado. A ciência das coisas naturais baseia-se, por conseguinte, em uma série de crenças, o que nos leva a concluir que, por ser assim, o conhecimento da natureza e os fatos em geral, seja assunto de probabilidade. Isto não significa que Hume negue a constância das leis naturais. Porém, a constância mencionada não é assunto de necessidade lógica ou racional, mas resultado de observação.

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS  

1 HUME, David. Investigação Acerca do Entendimento Humano. Introdução XVII. Trad. Anoar Aiex. São Paulo. Editora Nacional EDUSP, 1982.
2 Idem XVIII.
3 Idem, p. 40.
4 ABBAGNANO, N. Dicionário de Filosofia. S. Paulo, Mestre Jou, 1970, p. 117.
5 op. cit. p. 117.
6 MORA, José Ferrater. Dicionário de Filosofia. Madri. Alianza Editorial, 1982, p. 1536.
7 SCIACCA, Michele Frederico. História da Filosofia. S. Paulo. Mestre Jou, 1968, p. 81.
8 HUMF. David. Tratado da Natureza Humana. Sumário. Trad. Anoar Aiex. S. Paulo. Ed. Nacional, 1972.
9 Investigação. . . p. 16.
10 op. cit. trad. Leonel Valandro. Coleção Os Pensadores. S. Paulo. Abril Cultural, 1973.
11 op. cit. p. 136.
12 Tratado, Introdução XXV.
13 Idem, p. 14 e 15.
14 Investigação. . . seção IV, p. 29.
15 Idem, p. 30.
16 Idem, p.31.
17 Tratado. . . 1,2,3, p. 75.
18 Idem, p.76.
19 Idem, p. 86-7.
20 Investigação IV,1. 


Trabalho publicado na revista Filosofia em Revista 86.5